segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Mineirão mudou – já não somos mais crianças




Antigamente, meu pai me levava ao Mineirão. Saíamos do interior rumo ao Gigante da Pampulha, com sua arquibancada de concreto, comprando ingresso na hora do jogo, comprando tropeirão, refrigerante (para mim), cerveja (para ele) e picolé na arquibancada.

Na hora do gol do Cruzeiro, na alegria incontida, meu pai me pegava nos braços e me jogava para cima. Não me esqueço da imagem do campo vista do alto, sem contato com o concreto. Eu no ar, em sintonia com o espírito celebrativo do momento.
Era assim com meu pai. Vimos finais de campeonato, jogos importantes, jogos sem expressão, recorde de público do Mineirão. Com meu pai, vi o Mineirão tremer.
Fazia 15 anos que eu não ia ao Gigante da Pampulha com ele. Vi vários jogos sozinho, com minha esposa ou meus amigos. Ontem fazia sentido a história mudar.
O Mineirão mudou. Sentar no concreto já não é mais possível – espremer-se nas arquibancadas tampouco. O balançar da arquibancada, como notei tão claramente no Cruzeiro x Villa Nova de 1997 – eu estava na geral e pela primeira vez via o placar eletrônico movimentar-se tão intensamente na vertical –, já não se pode mais. O Mineirão já não treme mais. O estádio, ao diminuir de capacidade e crescer em estrutura passou a pulsar.
O Mineirão não é mais criança. Eu também não.
Era hora de eu levar meu pai ao estádio. Caminhar com ele pelas ruas do entorno, falando com ele para tomar cuidado e esconder a camisa cinco estrelas ao passar perto dos atleticanos para evitar qualquer confusão. Eu fui ao vendedor buscar os picolés. Eu tentei ir ao bar buscar um tropeiro ou pelo menos um copinho de água.
Na hora do gol, eu já não era mais jogado para cima. Meu pai e eu nos abraçamos, gritamos, trocamos olhar de cumplicidade. Entendemos a alegria despertada um no outro. Agora somos adultos.
Temos nossos problemas. O adulto Mineirão também. Mas a vida está aí para que o errado seja melhorado.
O espírito despertado no Gigante da Pampulha, que desde seu nascimento combinou melhor com a cor azul, é o mesmo da pequena camisa que eu ganhei quando ainda era bebê. Às vezes dizem que não nos lembramos de quando éramos bebês.
Mas não tenho dúvidas de que o Mineirão se lembra do seu primeiro clássico. Tenho certeza de que ele também não vai esquecer do seu clássico de maturidade.
No Mineirão, o Cruzeiro cresceu. Com o Cruzeiro, o Mineirão ficou conhecido em todo o mundo.

Penso que faria todo sentido o Mineirão ostentar aquela frase que acompanhava as cinco estrelas na camisa branca que ganhei do meu pai quando eu era bebê: “Obrigado, papai, pois já nasci Cruzeiro”.